Qual o centro do seu mapa?

Quem colocou como ‘centro do mapa’ um meridiano passando sobre a Inglaterra?

“Caçando chifre na cabeça de cavalo?”

Não dessa vez, já que a brisa tem cabimento rs

Hoje estava de bobeira por aqui quando chegou um pedido da @jecerqueira de um “mapa mundi” para o projeto Favelados pelo Mundo da Thamyra e do Marcelo. Ao invés de pegar algo pronto, resolvi complicar o pedido e oferecer a possibilidade de um mapa centrado no Brasil, até aí nada de muito complicado, uma busca simples e você logo localiza um mapa como este em formato de imagem (Porém nem sempre o ‘mudo’, como o procurado, ou com algum tema específico).

Mas foi aí que pintou a constatação; eu não sabia fazer este tipo alteração no QGIS (utilizo a versão Las Palmas 2.18.5) para montar eu mesmo um planisfério centrado em alguma longitude que não fosse a costumeira centrada em Greenwich (como a representação a seguir).

mundo_tradicional

Mapa mundi centrado na longitude de sua escolha.

Imaginando que era um pensamento que muitos já haviam tido e resolvido, rapidamente, fui a procura de tutoriais ou posts nos fóruns de GIS e percebi que aparentemente esta não era uma preocupação recorrente. Pelo menos considerando as palavras chaves que utilizei na busca (tanto em português quanto em inglês).

Depois de algum tempo encontrei este post em um dos fóruns que passei . Por lá, um passo a passo para gerar seu ‘mapa mundi’ centrado no Oceano Pacífico.

Perigo! Quem não manja nada de Cartografia pode ficar perdido nos próximos parágrafos, porém, vale tentar entender  a lógica, de qualquer forma, na sequencia tem um papo sobre história que todo mundo deve acompanhar.

Para um meridiano central a 150 ° Oeste, é necessário dividir o arquivo shape com limites para planisfério em 30 ° Oriente (para ser preciso, em 29.9 e 30.1 para evitar interseções)

Então, estas são as etapas:

  • Baixe o shapefile do ‘mapa mundi’ e carregue-o no QGIS
  • Save As ... no WGS84, e adicione o novo arquivo ao projeto
  • Exclua a primeira camada
  • Desativar On-the-fly-projection
  • Crie o seguinte arquivo de texto:

Nr; WKT

1; POLYGON ((30.1 89, 29.9 89, 29.9 -89, 30.1 -89, 30.1 89))

  • Adicione este arquivo como Text delimited layer, usando ponto-e-vírgula como separador e WGS84 como CRS
  • Salve a camada como shapefile, adicione-a ao projeto e exclua a camada de texto
  • Use Vector -> Geoprocessing -> Difference com as duas camadas de polígono
  • Crie um CRS personalizado (Menu Configurações) chamado Robinson com esta string proj:

+proj=robin +lon_0=-150 +x_0=0 +y_0=0 +ellps=WGS84 +datum=WGS84 +units=m +no_defs

  • Ative On-the-fly projectione escolha Robinson como projeto CRS

  O exercício é simples e para considerar outras longitudes basta calcular o quanto você precisa deslocar o shape para o novo centro desejado em seu mapa. Por exemplo, considerando que o Rio de Janeiro está na longitude 40ºW (na verdade 43ºW ), podemos inferir que o nosso mapa com os cariocas no centro terá sua margem deslocada de 180º para 140º (ou seja, os 40º de diferença para o antigo centro no 0º do meridiano considerado central).

Ou seja, as coordenadas informados no TXT (arquivo delimitado) para gerar o polígono que representa o meridiano central sobre o Rio de Janeiro vai ficar assim ó:

Nr;WKT
1;POLYGON((140.01 90, 139.99 90, 139.99 -90, 140.01 -90, 140.01 90))

Será também necessário considerar a nova longitude no CRS (Sistema de Coordenada) personalizado, neste caso, 40ºW, assim os parâmetros do CRS são:

+proj=robin +lon_0=-40 +x_0=0 +y_0=0 +ellps=WGS84 +datum=WGS84 +units=m +no_defs

A representação resultante após o passo a passo:

mundo_centro_SP

Dessa forma, se o centro para o seu mapa for outro, considere a longitude e faça o cálculo do quanto será o deslocamento, sei lá, pensando outra cidade do mundo… Dilí no Timor  que está há 125ºE. Será então necessário um deslocamento de 125º para Oeste neste novo ‘meridiano central’, então você deve subtrair do atual limite 180º os 125º e encontre o novo limite (uma nova linha internacional de data rs) para o seu planisfério, assim chegamos a 35ºW. Desta forma, é necessário criar o polígono para sobreposição considerando esta longitude, o que nos leva a descrição abaixo.

Nr;WKT
1;POLYGON((-35.01 90, -34.99 90, -34.99 -90, -35.01 -90, -35.01 90))

Repetindo os passos anteriores chegamos a representação a seguir.

mundo_centro_Dili

Ah, não esqueça de criar um CRS personalizado, neste caso com os parâmetros para a longitude de 125º Leste.

Durante a brincadeira no QGis logo veio a mente a história da definição de um meridiano passando por Greenwich como meridiano central para referência internacional.

“A invenção do primeiro meridiano”

 Quem conta esta história é professor Jörn Seemann, que até tempos atrás estava dando aula no Cariri cearense, alguns escritos que trazem um pouco mais sobre estão neste artigo na revista Geograficidade da UFF.

Até o final do século XIX haviam diversos meridianos utilizados como referência para construção das cartas marítimas, o que provocava a necessidade de conversões constantes entre longitudes. Por isso, o primeiro congresso internacional de Geografia em 1871 passou a recomendar o meridiano que passava sobre o observatório de Greenwich como central para as cartas marítimas, proposta que é ratificada no 1884 em Washington no que passou a ser chamada ‘International Meridian Conference’. Escolha feita pelas delegados da foto abaixo baseada em critérios econômicos, pois Greenwich era o meridiano com maior peso econômico, já que de acordo com o representante britânico aquele meridiano era utilizado por 65% dos navios.

IMC 1884

Homens em maioria brancos, nenhum do continente africano decidem sobre o meridiano central

A questão não é a necessidade desta definição, mas é ignorar o contexto desta ‘escolha’ e a naturalização para o 0º de longitude estar sobre a Inglaterra e assim nossos mapas estarem costumeiramente centrados sobre este único meridiano. No livro Carto-Crônicas, o professor Seemann também aborda o assunto e lembra:

Carto-Crônicas

Não naturalize o que é apenas imaginário

Wellington Fernandes

Anúncios
Esse post foi publicado em Geoprocessamento, Reflexão e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Qual o centro do seu mapa?

  1. Pingback: Sobre Projeções de Mapa Mundi | QuebradaMaps

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s